terça-feira, 31 de agosto de 2010

Bethânia

- É melhor pararmos por aqui.

A frase foi dita por um e os olhos do outro automaticamente se encheram de lágrimas. Bethânia ainda tentou argumentar – em vão. Ele obteve como resposta um seco vou arrumar as minhas coisas. Antes de levantar ainda chorou um pouco, Carlos esticou a mão para secar-lhe as lágrimas. Ela sentiu ódio, como aqule gesto era falso. Como tudo saída no timbre suave porém másculo de sua voz..

Foi o que bastou. Levantou dali e retirou absolutamente tudo que poderia ser seu dos armários, das prateleiras, do cesto de roupa suja e do cesto de passar, bem como da corda. Jogou fora sua escova de dentes e pôs sua toalha para lavar, lembrou de retirar suas moedas do porquinho azul que ele lhe dera de presente (o porco ficou, já era dele antes de entar na casa). Pensou em solicitar as fotos do álbum em tom grave e rasgá-las ali mesmo na sua frente, entretanto repensou e achou que seria excesso de ataque mulherzinha – coisa que sempre odiou. Por engano acabou levando o carregador de celular dele. Mas a proposta desse ato foi simplesmente não dar trabalho nenhum a Carlos, ela se retiraria da vida dele sem que ele precisasse catar os resquícios pela casa e apagá-los.

- Sabe Carlos, eu sempre estou na sua situação, sempre as pessoas saem da minha casa. Mas para tudo tem uma primeira vez.

Ela não o deixa abrir a porta do elevador. Entram.

- Eu não estou te expulsando da minha casa... diz ele com um olhar que convenceria qualquer menina de vinte e poucos anos, não Bethânia. Mas ele não a conhecia para isso.

    • Eu sei. Sendo mais cínica que ele.

No carro um silêncio de morte. A garota tentou fazer com que o homem falasse, mais uma vez em vão, então ela pediu para que ligasse o rádio. Assim foi feito. Horário eleitoral. Que droga!

Pararam num estacionamento perto de sua casa e começaram a retirar suas coisas de dentro do carro. Era bastante coisa.

Ela foi andando na frente com um andar duro que terminava de destruir seu coração. Ele atrás, ela não podia ver suas expressões, mas pareciam tranquilas.

Ao chegarem no apartamento por um segundo convesaram como se nada tivesse acontecido. No segundo seguinte ela pediu para que ele esperasse para que separasse suas coisas, em vão. Ponderou ainda em relação a luminária, essa mesmo ele não quis. Foi embora de mãos vazias. Antes pediu um abraço. Deu como se abraçasse um colega de empresa e recebeu o abraço do adeus. São coisas que só as mulheres percebem.

A jovem Bethânia chorou até esvaziar os olhos, os pulmões, o coração e a alma. Exorcisou todos os amores fracassados durante dois dias e duas noites. No fim deste processo foi tomada por uma raiva descomunal, que em vinte e quatro horas passou, ficou apenas a sensação do que pena que deu certo por tão pouco tempo. Em quatro dias tudo estava cicatrizado, o salto para fora do armário, o vestido florido passado sobre a cama...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cotidiano

Mônica acorda e ainda na penumbra do quarto observa o homem que dorme ao seu lado. Se acomoda em seu peito e sorri levemente. Eduardo, ainda dormindo, move seu braço e a cerca, fazendo com que seu sorriso cresça. Ela fica ali imóvel, respirando devagar tentando entender como tudo aconteceu. E ao lembrar que os culpados eram meros pães de queijo tem que conter a vontade de gargalhar.

Segundos depois se move e começa a acariciar os cabelos , e o acorda sem querer. Percebe, pois como ela, ele sorri ainda de olhos fechados, somente pelo fato de saber de sua presença no lado esquerdo da cama. Em coro soltam um bom dia baixinho.

Enrolam na cama por minutos a fio, embolando as pernas e enroscando as mãos nos cabelos um do outro. Assim a cama vai ficando deliciosamente bagunçada e espaçosa.

Um suspiro precede uma pergunta. Vamos levantar?

Sim, vamos. Espreguiça.

Quer tomar café? Se reacomodando na cama.

Quero. Quer que eu eu faça seu leite? Uai?! Não ia levantar?

Já vou... deixa que eu faço.

E na cozinha eles vão preparando o café-da-manhã. Ele o leite, ela o pão. Conversam sobre coisas triviais, trocam beijos entre os praparativos do desejum. Ele canta músicas que há tempos ela não escuta, algumas nem ao menos conhece.O riso de ambos está frouxo, como dizem por aí, não param de sorrir... lábios; olhos; braços e mãos; pernas e pés; póros.

Mônica só faz admirar cada pedaço desse homem que a conquistou em cinco minutos, às vezes até passa uma nuvem (como ele mesmo diz), se pergunta qual seria o defeito ou até quando esse paraíso vai durar. Se despreocupa no segundo seguinte ao vê-lo parado do outro lado da mesa do almoço.

Eu te adoro, sabia?

Sabia! Você diz todo dia.

Eu te adoro, cada dia mais.

E assim vão passando os dias, trocando carícias e mensagens apaixonadas, como dois adolescentes. Sentimentos nobres são atemporais, e nos deixam assim: bobos, achando graça de tudo e brilho nas trivialidades. Nos deixam incautos, pensando apenas no próximo encontro, sem amanhã.

domingo, 1 de agosto de 2010

Início de domingo

É bom acordar e ter fixado nas retinas a imagem do último sonho...
Se levantar da cama, espreguiçar, bocejar e colocar os pés descalços no chão.
Passear pela casa esperando a alma encaixar no corpo,
escutar o miado e dar bom dia ao gato.